"PRESENTE DE XAXADO PARA JOÃO GRILO E CHICÓ CONTADO POR BRINCANTES DO BOI CALEMBA"
Um texto adaptado pelo professor de Artes Max Daniel Alves Bezerra
RELEASE DA APRESENTAÇÃO
Este pequeno texto foi escrito pelo professor de Arte/Ensino de Teatro Max Daniel Alves Bezerra.
O objetivo do texto é transmitir em literatura de cordel de forma dinâmica, o máximo de informação sobre nossa cultura popular nordestina e a importância literária relevante de Ariano Suassuna dando ênfase ao Mateus, Birico e a Catirina, brincantes do Boi Calemba, colocando como narradores de uma história de uma cidade encantada cujo maior tesouro é o xaxado, uma dança típica nordestina, cuja origem foi ligada diretamente ao Cangaço especificamente por Lampião e seus companheiros por volta dos anos vinte do século XX.
A história traz ainda dois personagens famosos da obra literária "O Auto da Compadecida" do autor, dramaturgo, romancista, ensaísta e poeta Ariano Suassuna (in memorian) João Grilo e Chicó, que saem da literatura, do teatro e dos filmes e vem buscar o tesouro do xaxado nesta cidade escondida no meio do mato.
Um dos momentos mais marcantes do enredo é quando os brincantes recebem um aviso de um anjo que diz que a cidade só aparecerá juntamente com o grupo do xaxado quando João Grilo e Chicó recitar a poesia de Ariano Suassuna chamada "Lápide".
João Grilo e Chicó acatam a decisão divina e recitam a poesia fazendo com que a cidade apareça e o grupo de xaxado, (o maior tesouro), dancem e envolvam a todos.
XAXADO DANÇA TÍPICA DO NORDESTE BRASILEIRO
BRINCANTES DO BOI CALEMBA: MATEUS, BIRICO E CATIRINA
Matheus Nachtergaele e Selton Mello vivem os hilários nordestinos João Grilo e Chicó
MATEUS: Ó Deus criador onipresente
Pai dos homens de talento
Vem clarear o firmamento
para contar uma história
que intrigou o meu pensamento
BIRICO:É a história de uma cidade
que dizem ser encantada
onde só existe cultura e felicidade
e é pelo povo muito falada
CATIRINA: escondida no meio do mato
onde todos a procuram
Na procura de um xaxado
um tesouro aculturado
MATEUS: E o afoito do João Grilo
Do Auto da Compadecida
Buscava esta cidade de uma forma ensandecida
Querendo ver o xaxado uma dança desconhecida
(Aparece João Grilo)
JOÃO GRILO: Já cheguei...
Eu sou João Grilo tido como cristão
Que nasceu antes do dia
Me criei sem formosura
Onde de tanta sabedoria
Morri depois das horas
Pelas artes que fazia
BIRICO: Tu é muito sabido e desalmado
Pois em busca de uma cidade encantada
Buscas o tesouro do xaxado
Numa cidade desconhecida e acalorada
JOÃO GRILO: Pois é...prá achar esta cidade
e apreciar o tesouro do xaxado
pedi permissão a Ariano Suassuna
em busca deste achado
CATIRINA: Vixe Maria! Tu escafedeu?!
Num tás sabendo que Ariano Suassuna morreu?
JOÃO GRILO: Morreu nada, gente boa
Ele só foi morar com Jesus
Quem sabe se lá no céu
Vai ter literatura, poesia e teatro com um tema de uma cruz?!
(Entra Chicó)
CHICÓ: Ôooopa...cheguei
Saí do Auto da Compadecida prá vim atrás de tu
Também quero conhecer este bendito xaxado
Quero morar nesta cidade e não mais em Caruaru
JOÃO GRILO: Onde tô esta prejura aparece
Chicó tu és um infeliz das costa ôca
Me achou nem bem o dia amanhece
De tão apressado acabou perdendo a touca
MATEUS: Parem de brigar João Grilo e Chicó
Prá achar esta cidade tem que ter bom coração
Tem que ter bom pensamento e fazer muita oração
apelar para Nosso Senhor e Nossa Senhora
Porque senão o achado demora
BIRICO: Acabei de receber uma mensagem de um anjo
que diz que prá achar a cidade encantada e o xaxado
Tem que recitar uma poesia de Ariano Suassuna chamada "Lápide"
Vamos João Grilo, deixe de ser acanhado
CATIRINA: Vamos João Grilo e Chicó
Comecem a recitar
Façam logo sem demora
Percam a vergonha e comecem logo a falar
Foi um anjo que mandou que veio do céu donde ele mora
LÁPIDE
JOÃO GRILO: Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alardeado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.
CHICÓ: Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.
JOÃO GRILO: Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido
CHICÓ: que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!
(O Mateus, o Birico e a Catirina começam a ver a cidade encantada e o grupo do xaxado aparece em posição para começar a dançar.)
MATEUS: Espia Birico, deu certo! A cidade apareceu!
E com ela o xaxado resplandeceu!
JOÃO GRILO: Gente, quanta emoção!
A minha alegria vai se tornar numa grande explosão!
CHICÓ: A cidade apareceu e o xaxado também
E que os anjos digam amém
BIRICO: Vou falar do meu lugar
Terra de cabra da peste
Terra de homem valente
Do sertão e do agreste
Terra do mandacaru
Do nosso maracatu
Meu lugar é o Nordeste!
CATIRINA: Meu Nordeste tem riquezas
Só encontradas aqui
Sua música, sua dança
Sua gente que sorri
Nosso povo tem bravura
Tem tradição, tem cultura
Do Rio Grande do Norte ao Piauí.
O GRUPO DE XAXADO COMEÇA A DANÇAR E TODOS ENTRAM NA DANÇA